11.12.09

De como somos uns ignorantes e não percebemos nada do que se passa à nossa volta



todos os dias concluo como o Hamlet, há mais coisas entre o céu e a terra...
Ontem decidi ir assistir à palestra que aqui anunciei. Não que esperasse aprender alguma coisa, afinal temos o Dakar aqui em casa há mais de uma ano e portanto de cães guia sei tudo, mas por um qualquer sentimento comezinho de solidariedade, e se lá têm pouca gente... Como me enganava na minha presunção, muita gente não havia, cinco da tarde é muito cedo para os portugueses trabalhadores (nada que se compare com os hábitos dos nórdicos que a essa hora já estão em casa, de peúgas, a limpar e a limpar), mas ouvi histórias espantosas e coisas em que nunca tinha pensado. Dizia o conferencista, o director da escola de cães-guia, meio a sério meio a brincar, que precisavam de ter lá na escola, para além dos educadores dos cães, do apoio de um psicólogo para ajudar os cegos no turbilhão que é a entrada de um cão-guia na vida deles. Que atinge até situações de divórcio se o (a) cego(a) percebe, finalmente, que só aturava o (a) parceiro (a) pela dependência que tinha dele ou dela. Mas ouvi também a mais que esclarecedora resposta dada por uma cega a alguém que a interrogava sobre se era realmente importante para ela ter o cão, se aquilo não era um bocadinho “folclore”... A senhora pergunta-lhe de volta, “em que é que o senhor vai a pensar quando de manhã vai para o trabalho?” o dito perguntador, surpreendido, alinhavou duas ou três coisas “estou atrasado.. .o jogo do Benfica ... está um lindo dia...”. Pois, continuou a cega, eu, agora que tenho o meu cão, também penso nessas coisas todas e noutras; porque antes só pensava, será que há buracos na rua? onde é a passadeira? e as poças de água?





10.12.09

limpezas

Henry Cartier Bresson


Anda para aí um sururu sobre se é bem ter empregada doméstica ou se pelo contrário está out ter empregada doméstica, porque os nórdicos não têm empregada doméstica e têm uma imensa qualidade de vida apesar de não terem empregada doméstica. E era o que me faltava a mim era ter que pautar o que tenho ou deixo de ter porque os nórdicos têm ou não. Uma vez, estava a falar de azeite com uns suecos, e percebi que era como estar a falar de ovos mexidos ou de praticar golfe com a minha gata. Ora, será por isso que vou deixar de gastar uma garrafa de azeite por semana? ou vou ter que começar a gostar de arenque, ou de deixar de tomar banho e de fazer a cama porque os nórdicos o (não) fazem? Eu gosto de uma cama feita a preceito e não de um edredão dobrado às três pancadas, gosto de comer sopa ao jantar e de me sentar para almoçar com faca e garfo, e de usar a roupita passada a ferro. E ao sábado há coisas muito mais interessantes a fazer do que aspirar e limpar o pó, como seja brincar com os filhos pequenos. E se puder pagar a alguém para fazer essas minudências por mim; minudências sim, entrem numa fábrica qualquer e comparem a agrura do trabalho. A isto também se chama fazer funcionar a economia. E sim, sou classe média, mas não me venho para aqui gabar de ter bebido um Barca Velha ao jantar (nem podia), como outros por aí. A senhora que trabalha em minha casa, por quem tenho o maior respeito (como podia não respeitar imenso alguém que transforma o caos matinal numa coisa linda de se ver, e já agora, de se cheirar), é portuguesa como eu, tem filhos que frequentam a mesma escola que os meus, com as mesmas expectativas em relação ao futuro, tem carta de condução como eu, e faz o trabalho dela enquanto eu faço o meu. Tudo o resto é preconceito.

9.12.09

Lá em casa temos o Dakar



"Um cão-guia para cegos é geralmente um labrador de raça retriever, educado durante dois anos para conduzir o seu dono em segurança nas suas deslocações. Ele evita que o seu dono choque com obstáculos, ajuda-o a encontrar a entrada dos locais onde pretende dirigir-se, procura um multibanco ou um telefone público, encontra a passadeira para peões e até impede que pise poças de água e excrementos de outros animais. Nesta sessão, que conta com a presença de um cão guia, vamos aprender como se faz a sua educação e como cada um de nós pode participar directamente nessa formação."


Amanhã às 17 h no Museu da Ciência da UC



lá em casa temos o Dakar (que não é o cão da fotografia) quase em fim de formação e de quem já falei aqui, aqui e aqui .

e muito mais teria para contar...

A família da B



B tem 9 anos e desde os 4 que vivia numa instituição. B aos 9 anos encontra uns pais.
B ao telefone, radiante -sabes, tenho um pai P, uma mãe L - e, com entusiasmo crescente -e sabes, tenho quinze tios e vinte primos!

Isto é uma família, a família da B.

7.12.09

Hopenhaga

Bernard Plossu


Porque será que não consigo ficar aos saltos e às palminhas? Será que sou desmancha-prazeres?

4.12.09

A arca

Este blogue tem pretensões e por isso vos continua a explicar, as coisas como elas são. Do Sermão, esta é uma das minhas passagens favoritas, exactamente porque não há dúvida que lhe resista.




"No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou o Mundo, e de todos os animais quais livraram melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam, antes não só escaparam todos, mas ficaram muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as aves, porque não morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo Ambrósio: porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos, tinham mais comunicação com os homens, os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes, assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais na força daquelas ervas com que, infeccionados os poços e lagos, a mesma água vos mata; mas como o dilúvio era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus pecados, e ao Mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima providência da divina Justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo Mundo visse que da companhia dos homens lhe viera todo o mal; e que por isso os animais que viviam mais perto deles, foram também castigados e os que andavam longe ficaram livres."

Da Literatura



O Eduardo adianta-se no calendário: ainda falta quase um mês e lança balanços. Trágico, uns contentinhos escrevem que já não há nada para ler, eu, pelo contrário, dos imprescindíveis do Eduardo li o Everyman do Roth. E se metade dos autores conheço bem, de outros tantos nunca li nada. E penosamente me arrasto com o Musil às costas. Tanto para ler, tão curta a vida.





A fotografia da lindíssima sala de leitura da Biblioteca Geral da UC é da Candida Höfer.

30.11.09

Notícias do Outono: Álvaro de Campos

Excusez un peu... Que grande constipação física !
Preciso de verdade e da aspirina.






in Soneto já Antigo e outros Poemas, Ática

Roth


Leio o meu terceiro Roth e estou a ficar farta de velhos judeus libidinosos, da morte temerosos. Eis a razão porque nunca vai ganhar o Nobel, são obras sem esperança, onde o futuro acabou há muito.

Vos estis sal terrae


Enquanto do céu plúmbeo a água caía a cântaros, no cenário apocalíptico das ultrapassagens de carros, camiões e motas, chegar cedo a casa, chegar a casa depressa para ver o FCP, no carro, na A1 que liga o Porto a Coimbra, o Luis Lima Barreto declamava o Sermão de Santo António aos peixes, cousa mui sábia e erudita, trezentos e cinquenta e cinco anos depois de S. Luís do Maranhão.


"Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber.

...

Não é tudo isto verdade? Ainda mal! "


e de como Santo António julgou abandonar os homens e pregar aos peixes:


"Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António?

...

Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

...

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente."

(continua...)


e é por estas coisas, e pelas que virão a seguir, que faz o Luís mui mal em deixar de ler livros, mas continuar a ler pasquins.

26.11.09

Um exercício

Dorothea Lange


Vindo do Rui , recebo o exercício abaixo (bastante mais abaixo, não se percam na verborreia).


Estas coisas cheiram-me sempre a adolescência tardia. Pertencem ao tempo em que enchíamos cadernos com inquéritos de perguntas vãs, porque na verdade as únicas que interessavam eram “Amas alguém?”, “Quem?”. O amor, o amor. Era também a época dos livros de autógrafos. Que não se destinavam a recolher mensagens ou assinaturas de famosos, porque, por um lado, ainda não havia o conceito de famoso dos dias de hoje, e, por outro, os verdadeiros famosos nunca chegaram à vila caquéctica onde eu morava.

Enchiam-se os livros de autógrafos de mensagens de amizade de amigos e amigas, de versos a preceito por entre muitas flores e corações e outras manifestações artísticas de quem para isso era dotado, que não eu. Eu também tive um livro de autógrafos, deles (dos autógrafos) o mais precioso era de um rapaz, vagamente meu namorado, e que se tornou muito mais namorado no dia em que estupidamente resolveu morrer de acidente de automóvel. Pois, certa vez, andava o meu livro de autógrafos a girar no afã de recolher amizades, quando volta às minhas mãos com a página do dito namorado morto coberta de beijos de batom. Foi um segurem-me que eu mato-a. Nunca mais vi o livro, decerto perdido numa das muitas mudanças de que é feita a vida.


Completar as seguintes cinco frases:

Eu já…
Eu nunca…
Eu sei…
Eu quero…
Eu sonho…


Eu já me perdi na rua de Santa Catarina, em Montreal, Québeque, porque não percebi que tinha saído do metro em sentido errado, e ao princípio achei muita graça porque estava na Village, o bairro gay, pleno de joie de vivre, mas continuei a andar e a andar e há muito que a joie de vivre se tinha ido e já só armazéns e terrenos abandonados. E quando, aproveitando a luz de um candeeiro, olhei para o mapa, vi que estava a andar ao contrário, na Rua de Santa Catarina, quinze quilómetros de lonjura, em Montreal, Quebeque. Hey babe, take a walk on the wild side

Eu nunca comi pernas de rã.

Eu sei muito pouco de quase tudo.

Eu quero ir e quero ficar e sempre assim fui, em jovencita chamavam-me Isabel Variações, sempre a querer ir e ficar, a só estar bem onde não está.

Eu sonho demasiado.

Eu não passo isto a mais ninguém.